Quanto vale um Olho de Boi?

 

por Peter Meyer 

 

Esta é a pergunta mais freqüente de quem não é filatelista. A resposta mais rápida a ser dada é: o valor de um Olho-de-Boi varia de R$ 70,00 (ver ofertas no site www.oselo.com.br) a R$ 2.310.000,00**. 

O primeiro preço refere-se a um selo isolado de 60 réis, com defeitos e em péssimo estado de conservação. O segundo valor (equivalente a US$ 770.000)** foram obtidos por duas peças: A chamada PACK STRIP e a FOLHA COMPLETA do 60 réis Olho-de-Boi. Neste mesmo nível de valor está a ÚNICA SOBRECARTA conhecida com a série completa (30+2x60+90 réis) exposta na PHILEXFRANCE 1999. Esta última, aliás, é a única peça filatélica de História Postal, pois trata-se de um envelope circulado. 

O Pack Strip é formado por dois selos de 30 réis ligados a um 60 réis. Recebeu este nome pois Charles Lathrop Pack, colecionador de Chicago, tornou-a famosa em 1916. A folha de 60 réis Olho-de-Boi foi recentemente negociada entre um colecionador brasileiro e encontra-se na Espanha. A sobrecarta com a série completa encontra-se ainda no Brasil. 

Nos selos clássicos do Brasil, aqueles que foram destacados da folha através de uma tesoura (não existia ainda o selo com picotes) olha-se muito o tamanho da margem e uma avaliação precisa não é tarefa fácil. Os Olhos-de-Boi foram emitidos no dia 1 de agosto de 1843 no Rio de Janeiro. Este dia é conhecido no Brasil como o DIA DO SELO POSTAL. O Brasil foi também a segunda nação do Mundo a emitir o selo postal, seguindo o exemplo da Grã-Bretanha & Irlanda, que emitiu no dia 5 de maio de 1840. 

Isto aconteceu em virtude da vinda da Família Imperial em 1808 ao Brasil. O Conda da Barca incluiu na bagagem desta travessia um equipamento, moderno na época, de impressão. D. João VI precisava, ao chegar ao Brasil, alimentar e sustentar uma Corte de 15.000 pessoas. Lembre-se que a população total do Rio de Janeiro na época era de 80.000 pessoas, sendo 40.000 escravos. As máquinas de impressão foram acionadas para a impressão de papel fiscal. Com a cobrança de taxas das nomeações foi possível a D. João VI auferir receita, indispensável à manutenção da Corte. Claro que diversas outras medidas foram tomadas para garantir uma receita condizente (cunhagem de moedas, impostos, etc.). 

Nos dois primeiros anos (1843 e 1844) foram impressos cerca de 2.072.990 exemplares dos Olhos-de-Boi e atualmente existem cerca de 6.000 peças em todo o mercado, nos valores de 30, 60 e 90 réis. O mais comum é o de 60 réis (primeiro porte terrestre). Os selos de 30 e 90 réis são bem mais escassos. O total de peças disponíveis (6.000) encontram-se em diversos estados de conservação. Estima-se que apenas uma parcela ínfima destes selos estejam em perfeito estado (sem rasgo, sem aminci, sem dobras). Uma quantidade ainda muito menor escapou do carimbo. Os Olhos-de-Boi novos (sem carimbo) são muito raros. Ao adquirir um exemplar sem carimbo torna-se INDISPENSÁVEL um certificado de autenticidade, pois os carimbos, obliterações, etc., podem ser removidas quimicamente. 

QUAL A FAIXA DE VARIAÇÃO DE PREÇO DE UM 60 RÉIS OLHO-DE-BOI COM CARIMBO? Vamos inicialmente descrever os fatores que costumam afetar o valor de um selo clássico isolado (numerais do Brasil): 
MARGENS: Os selos eram separados pelo usuário com uma tesoura. Na folha o espaçamento original entre os Olhos-de-Boi, permitia uma boa separação (o que não ocorre com os Inclinados e alguns valores da emissão verticais e coloridos). Por essa razão, para considerar um exemplar como sendo de boa qualidade, exige-se margens medindo em média 1,5 mm, sendo de 1 mm a margem mínima. Nos outros numerais esta margem média é bem menor. 
ESTADO DE CONSERVAÇÃO: Nossos Olhos-de-Boi foram emitidos há 162 anos atrás. Imagine a longa viagem de um único exemplar: Impressão, transporte aos Correios, corte com tesoura, colagem em uma sobrecarta, triagem, transporte da sobrecarta, recebimento da missiva (entre outras inúmeras triagens), abertura da sobrecarta, remoção do selo (as vezes com violência) do papel, armazenagem por muitos anos e finalmente (colado com uma charneira) colocado em uma coleção. Passados 162 anos o mesmo não deve apresentar: rasgos, dobras, margens pequenas, aminci, manchas, furos para ser considerado perfeito. Um SOBREVIVENTE. O aminci (termo francês incorporado ao dicionário filatélico) ou janela (termo em português) ocorre quando um selo colado no papel ou na charneira é arrancado (sem lavagem na água) e quando visto na benzina apresenta um adelgaçamento do papel. Qualquer defeito citado diminui o valor do selo clássico. Existe ainda a ferrugem, causada por fungos. Esta, entretanto, pode ser removida quimicamente, de preferência por um profissional da área. 
TIPO DE PAPEL: Nos Olhos-de-Boi existem basicamente 4 tipos de papel. Esta classificação considera a espessura, medida em micra, bem como a textura e a cor do papel. Uma classificação especializada, com os respectivos valores, pode ser encontrada no Catálogo Enciclopédico de Selos e História Postal do Brasil (editado em 1999 e presente no site www.oselo.com.br). 
IMPRESSÃO: Podemos analisar neste caso, a cor, a nitidez e o relevo do selo. Valoriza a peça uma impressão nítida e um relevo saliente (dizemos que o exemplar apresenta patina). Uma classificação da chapa e do estado da chapa também é possível mediante uma análise da placas de Napier. Como cada Olho-de-Boi tem sua individualidade característica, Napier conseguiu remontar as diversas chapas e estados de conservação. A publicação Napier é uma obra rara e cara, pois foram poucos exemplares publicados. 
EXISTÊNCIA DE VARIEDADES: Mesmo nos Olhos-de-Boi existem variedades. Alguns raros exemplares podem apresentar: Filigrana de sutura - São marcas d’água em forma de costura, provenientes da compactação do papel quando de sua fabricação. São marcas acidentais visíveis na benzina. A filigrana para evitar as falsificações aparece pela primeira vez nos selos fiscais da emissão Cruzeiro, já na República. Linhas de margens de folha ou divisória (semi-xifópagos) - São linhas de contorno e a classificação especializada dos semi-xifópagos pode ser encontrada no no Catálogo Enciclopédico de Selos e História Postal do Brasil Pliês – Palavra francesa que significa dobra. Nos selos postais as dobras realizadas após a impressão constituemum defeito. As dobras ocorridas antes da impressão, pelo contrário, formam uma faixa branca, sem impressão, que valoriza a peça. 
CARIMBO: Cerca de 90% ou mais dos Olhos-de-Boi conhecidos apresentam o carimbo "CORREIO GERAL DA CORTE". Na época a anulação de um selo poderia ocorrer tanto na origem como no destino. Como na Corte (Rio de Janeiro) havia um rigoroso controle nesta inutilização, explica-se ser este o carimbo mais freqüente. Outros carimbos aplicados em exemplares até defeituosos, podem fazer da peça uma grande raridade. Neste caso, o comprador estará adquirindo não apenas um Olho-de-Boi, mas também um raro carimbo. Uma classificação detalhada destes carimbos pode ser encontrada no Catálogo de Selos do Brasil de 1978. 
DATA DO CARIMBO: Mesmo com um simples carimbo C.G. da CORTE, uma peça pode alcançar um grande valor. É o caso dos carimbos de primeiro e último dia e com data errada. Os Olhos-de-Boi com carimbos do dia 1 de agosto de 1843 são muito raros. Os de 1854 (últimas datas conhecidas) também. Existem ainda as peças com carimbos errados. 

Todas estas peças são jóias da filatelia brasileira e sendo a segunda emissão postal do mundo os OLHOS-DE-BOI são desejados por milhares de filatelistas espalhados pelo mundo. Por essa razão trate de adquirir a sua série 30, 60 e 90 réis já, pois o número de peças disponíveis sempre diminui e daí a razão destes selos serem um investimento de longo prazo. 

 

** À época, o dólar estadunidense era cotado a R$ 3,00

 

Fonte: http://www.clubefilatelicodobrasil.com.br/artigos/atecnicos/quantovale.htm

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